Campeão do Giro da Itália escapou de 'doença da alma' e começou a trabalhar na roça aos 7 anos

Campeão do Giro da Itália no último domingo, o colombiano Nairo Quintana estava exausto após os 172km entre Gemona del Friuli e Trieste - a última etapa da competição.

"Esse foi o Giro em que mais sofri na vida... Mais do que qualquer um possa imaginar...", disse

Os 3.445,5km percorridos durante uma das maiores provas de ciclismo do mundo, porém, nada se comparam às dificuldades que o atleta de 24 anos passou até a adolescência.

A maior vitória de Quintana, na verdade, é estar vivo.

"A doença da alma"
Nascido em 4 de fevereiro de 1990 na cidade de Tunja, na Colômbia, Nairo disputou sua primeira "grande prova" ainda no ventre materno. Ele foi diagnosticado com o que os povos originários do país chamam de huichol haikul, ou "mal do defunto".

A doença, segundo os locais, afeta a alma da pessoa, fazendo com ela tenha pouquíssimas chances de sobreviver aos primeiros anos de vida.

Não se sabe ao certo se foram as péssimas condições de saneamento básico em que vivia, ou o próprio "mal do defunto", mas Nairo passou seus primeiros meses de vida com fortes febres e diarréias.

Os prognósticos eram os piores possíveis. Os remédios não faziam efeito.

Sua vida estava por um fio...

Graças a um chá de ervas medicinais preparado por uma amiga de sua mãe, porém, o garoto conseguiu escapar da morte. As febres foram controladas, e ele finalmente começou a se alimentar direito. A "doença da alma" estava curada.

Os sábios locais sentenciaram: quem vence o "mal do defunto" está destinado a grandes coisas na vida.

Estavam certos.

Vida na roça e no pedal
Depois de vencer sua primeira batalha pela vida, as dificuldades seguiram presentes na vida do colombiano. Quando ele tinha sete anos, seu pai sofreu um acidente que o impossibilitou de continuar cultivando a roça da família, que sobrevivia da venda de frutas e legumes.

Aos 7 anos, portanto, Nairo "abandonou" a infância e se transformou no homem da casa, trabalhando de sol a sol para garantir o sustento da família.

A dedicação do garoto foi tanta que, quando o filho completou 12 anos, seu pai gastou suas economias para dar o presente que mudaria a vida de Quintana: uma bicicleta.

Com a "magrela", Nairo passou a pedalar 16km diariamente para ir à escola na cidade de Arcabuco, em meio às subidas e descidas da região montanhosa de Boyacá.

Detalhe: tudo isso a mais de 3 mil metros de altitude.

Começava aí a carreira de um dos maiores ciclistas de montanha da atualidade.

O descobrimento
No caminho para a escola, Nairo Quintana frequentemente era ultrapassado por ciclistas profissionais da região, em treinamento para grandes provas. Ele tentava acompanhá-los, mas o fato de ter que levar sua irmã amarrada à sua bicicleta dificultava demais a tarefa.

Apesar disso, acabou chamando a atenção do treinador Vicente Belda, que viu gigantesco potencial no jovem, então com 15 anos.

Graças a Belda, Nairo conseguiu entrar para o mundo do ciclismo profissional, assinando seu primeiro contrato profissional com a equipe Boyacá Es Para Vivirla, patrocinada pela Secretaria do Turismo local.

Na prova que fez para saber se estava apto a entrar para o time, Nairo superou com folga todos os futuros colegas de equipe.

O desempenho foi tão impressionante que os chefes pediram para que ele repetisse a prova. "Os medidores só podem estar quebrados. Esses números são impossíveis", disseram.

Mas não estavam.

Da Europa para o mundo
Já como profissional, Nairo foi levado para a Europa para começar a competir nos grandes torneios de ciclismo do mundo. Em 2010, ganha seu primeiro título: o Tour de l'Avenir, uma espécie de "Série B" do prestigioso Tour de France.

Seu desempenho nas etapas de montanha foi impressionante. Seu fôlego nas subidas parecia inesgotável.

Tanto é que, em 2012, o Movistar, um dos principais times de ciclismo do planeta, assinou contrato com o colombiano.

Rapidamente, ele passou a mostar que, de fato, estava destinado a grandes feitos. As vitórias e os títulos não paravam de vir. Sem medo de correr entre veteranos, chegou a fazer lendas do esporte, como o britânico Sir Bradley Wiggins, comerem sua poeira.

Sua ascenção alcançou notabilidade mundial no Tour de France do ano passado, quando ele terminou como "Rei da Montanha", com uma notável vitória nos complicados 125km entre Annecy e Mont Semnoz. Além disso, foi apontado como melhor jovem da competição.

A coroação veio no último domingo, com o primeiro grande título de Nairo Quintana: o Giro da Itália. Ele ganhou duas das 21 etapas do torneio, e assumiu a camisa rosa do líder na 16ª prova, para nunca mais perder.

E tudo isso ainda competindo "baleado".

"Eu tive vários problemas físicos. Nunca estive 100% durante o Giro. Acho que alcancei só 60% do meu potencial", disse, pouco depois de comemorar seu título com muito champanhe.

De fato, ele está destinado a grandes coisas.

   
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